Sob o Céu de Sangue — Parte 1


O vento carregava o cheiro doce e enjoativo de flores secas, misturado a algo mais pesado, quase metálico. O portão de madeira da pequena cidade rangeu quando se abriu para o grupo, revelando ruas de pedra mal iluminadas por lampiões trêmulos.

À frente caminhava Edrik, o líder improvisado. Um homem de meia-idade com barba grisalha mal cuidada e um manto puído que escondia uma armadura de placas. Seu olhar percorria tudo com desconfiança, como quem já sabia que a ameaça não viria de onde se espera.

Ao lado dele, Lysanne, uma maga de cabelos ruivos e expressão dura, carregava um cajado talhado com símbolos antigos. Seus olhos pareciam sempre calcular algo, como se medisse a distância entre a vida e a morte de quem estivesse diante dela.

Tomas, o mais jovem, era um arqueiro com um arco longo nas costas e a pressa de quem queria provar seu valor. Ele tentava parecer destemido, mas as mãos não paravam de ajeitar a aljava.

Por último, quase se arrastando, vinha Bran, um sacerdote robusto com o semblante fechado. O peso de seu martelo de guerra parecia menos incômodo que o peso das orações não atendidas.

Ninguém os recebeu.

As janelas estavam entreabertas, com olhos curiosos espiando pelas frestas, mas bastava o olhar dos viajantes subir para que as cortinas fossem puxadas às pressas. Um cachorro magro atravessou a rua correndo, o som das patas ecoando como um tambor apressado.

— Já vi aldeias com medo, mas isso… — murmurou Tomas, quebrando o silêncio.

— Cala a boca — respondeu Edrik sem sequer virar o rosto. — Medo assim costuma ter motivo.

Na praça central, uma fonte de pedra esculpida com anjos estava seca — o musgo cobria quase toda a escultura, mas algo mais chamava atenção: nas bordas, manchas escuras que pareciam não sair, como cicatrizes deixadas por um tempo que a cidade queria esquecer.

Lysanne se aproximou, tocou a borda e esfregou os dedos. Quando afastou a mão, eles estavam úmidos.

— Não é ferrugem. Nem terra. — Ela olhou para o grupo. — É sangue.

O único bar aberto ficava numa esquina. Uma lamparina pendurada balançava com o vento, e a porta, entreaberta, rangia como um lamento. Lá dentro, o dono — um homem magro, de cabelos ralos e olhos fundos — os olhou com um misto de alívio e medo.

— Se forem ficar… — a voz dele era baixa, quase um sussurro — trancam bem as portas.

Bran deu um passo à frente. — O que acontece aqui?

O taverneiro engoliu seco. — Acontece que à noite, ninguém é de ninguém.

Pouco depois, já na pensão anexa à taverna, o grupo ocupava dois quartos — homens em um, Lysanne no outro. O vento zunia pelas frestas, e a lua cheia, alta no céu, lançava luz prateada pelas janelas.

Edrik ajeitava a espada sobre o criado-mudo quando ouviu o sussurro. Vinha de fora, de um beco estreito entre a pensão e a casa vizinha. Palavras que ele não entendia, mas que pareciam chamá-lo pelo nome.

No quarto ao lado, Lysanne não conseguia dormir. Do espelho rachado sobre a cômoda, a imagem refletida da janela mostrava a rua vazia… até que uma sombra atravessou, rápido demais para ser humana.

E então, o grito.

Um som agudo, vindo da rua, rasgou a noite. Tomas se lançou à janela, Bran já com o martelo em mãos. Edrik saiu pela porta, descendo as escadas em passos firmes.

Quando chegaram à rua, viram apenas o corpo caído de um homem — a pele pálida demais, os olhos arregalados, e no pescoço, duas marcas fundas, como se algo tivesse perfurado a carne com precisão cirúrgica.

O silêncio caiu de novo. Mas, dessa vez, o silêncio parecia observar.

Lysanne se ajoelhou ao lado do corpo, examinando as marcas. — Não é fera. Não é arma. Isso é… algo que se alimenta.

Edrik ergueu os olhos para a rua escura. — Seja lá o que for… não está caçando comida. Está caçando nós.

A lua foi coberta por nuvens, e com a escuridão, o vento trouxe de novo o cheiro de flores secas misturado ao ferro do sangue.

A primeira noite em Braventon estava só começando.


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