Os Quatro Elementos Fundamentais (Parte 3)
O Ninho da Bruxa
Continuação do conto de Ordem Paranormal
O silêncio da floresta não era apenas ausência de som. Era hostilidade contida.
Os quatro agentes caminhavam em fila pela trilha de terra batida, ladeada por eucaliptos tão altos que ocultavam o céu. A luz do amanhecer mal conseguia atravessar o dossel. Tudo parecia parado, como se o tempo tivesse congelado ali.
Braga apertava o coldre com força, sentindo a umidade fria escorrer pela nuca. Dormir não tinha sido fácil. Nenhum deles falava sobre isso, mas os rostos denunciavam: olhos fundos, olheiras escuras, expressão quebrada.
Marcos foi o primeiro a romper o silêncio:
— “Alguém mais sonhou... com a cabana?” — sua voz soava áspera, baixa.
Clara desviou o olhar para o chão.
— “Não. Sonhei com... barulho de estática. E um rosto... atrás do vidro.”
Valéria não respondeu de imediato. Seguiu andando, mas a respiração acelerada entregava algo. Por fim, murmurou:
— “Sonhei que estávamos voltando para a cidade... mas ela não existia. Só tinha árvores. E uma voz dizendo meu nome.”
O vento não soprava. Nenhum pássaro, nenhum inseto. Apenas o som abafado das próprias botas na terra. Então veio aquilo — o chiado baixo, quase inaudível, como eletricidade correndo por fios desencapados. Braga parou, levantando a mão para sinalizar alerta.
— “Estão ouvindo?”
Todos ficaram imóveis. O som estava em toda parte, vibrando no ar, mas não tinha origem clara.
Quando a trilha se abriu, a viram: a cabana.
Envelhecida, sim, mas estranhamente viva. A madeira escurecida parecia pulsar sob a luz cinzenta. Antenas retorcidas pendiam do telhado como chifres metálicos. Câmeras camufladas nos troncos acompanhavam o grupo desde antes de eles verem a casa. Cabos atravessavam o chão, entrelaçando-se como raízes artificiais.
Clara parou, engolindo em seco:
— “Isso... isso é um sistema inteiro de vigilância. Mas não é comum. Quem fez isso tinha... MUITO acesso.”
Braga franziu o cenho, olhando para a porta.
— “Não é só vigilância. Tem armadilhas.”
Marcos deu um passo e um estalo metálico ecoou sob as folhas secas.
— “PARA!” — gritou Valéria, instintivamente erguendo a mão.
Do chão, brilhou uma luz azul. Sensores ativaram-se, espalhando símbolos luminosos pelo solo, mas nada explodiu. Nada disparou. Apenas... esperaram. Como se reconhecessem algo no grupo.
Um arrepio percorreu a espinha de todos.
Clara sussurrou:
— “Isso não foi feito para matar. Foi feito para assustar... ou para manter algo preso.”
A porta abriu-se sozinha, com um chiado pneumático que quebrou o silêncio da mata. A cabana convidava.
Braga lançou um olhar aos outros.
— “Armas prontas. E ninguém toca em nada.”
Por dentro era maior do que aparentava por fora.
O espaço parecia um laboratório improvisado — ou um santuário tecnológico. Mesas tomadas por fios, dispositivos antigos e modernos unidos de maneira antinatural, como se alguém tivesse costurado décadas diferentes com fita isolante e magia.
As telas exibiam informações sem lógica aparente:
-
Fórmulas alquímicas lado a lado com códigos de programação.
-
Coordenadas geográficas sobrepostas a símbolos arcanos.
-
Rituais escritos em línguas mortas.
Uma tela mostrava a cidade, em tempo real. Outra, a floresta, em infravermelho. Outra... mostrava eles mesmos, naquele instante, abrindo a porta.
Valéria passou a mão pelo rosto, exasperada:
— “Isso é doentio. Quem vivia aqui?”
Clara aproximou-se de um teclado antigo, analisando as linhas de código.
— “Não era só uma bruxa. Era alguém que juntava tudo: ciência, rede, espírito, magia. Essa mulher... era uma ponte.”
No fundo da cabana, uma porta reforçada com quatro fechos mecânicos e um painel de energia. O metal estava gasto, mas as trancas brilhavam — mexidas recentemente.
Valéria estremeceu:
— “Tem algo atrás disso. Eu consigo sentir.”
Braga respirou fundo, abriu os fechos um a um. A porta deslizou, revelando um espaço escuro demais para ser natural. O ar lá dentro era mais quente — e mais denso.
O interior era uma sala circular, revestida com símbolos pintados em sangue e cobre. No centro, uma coisa:
Um corpo metálico de quase dois metros, feito de placas de ferro enferrujadas, articulações grotescas, partes de animais empalhados, tubos respirando fumaça negra.
No lugar da cabeça, um crânio humano.
No peito, o símbolo da Entropia, riscado com fios vermelhos.
E por toda a superfície, sigilos talhados com precisão cirúrgica. Sigilos vivos.
Ele estava desligado. Mas o ar ao redor vibrava, quente, como se a coisa respirasse por dentro.
Uma tela no canto acendeu sozinha, palavras frias:
“GUARDIÃO INATIVO.”
E logo abaixo:
“Se eu falhei… ele protege. Mas se ele acordar, corram. Ele não é meu.”
O silêncio pesou.
Valéria virou o rosto, quase vomitando.
Marcos analisava cada detalhe com os olhos arregalados:
— “Isso não é... humano. Nem só máquina. É outra coisa.”
Braga já apontava a arma para a criatura, os músculos tensos.
Clara, com a voz quase falhando, completou:
— “Não é a cabana dela... é a prisão dele.”
E agora queimada, quem vai impedir que ele acorde?



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