Os Quatro Elementos Fundamentais (Parte 2)
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Este aqui é a continuação do conto Os Quatro Elementos Fundamentais. Se você ainda não leu a primeira parte.
2 — As Cinzas e os Sonhos
A fogueira já não queimava com tanta força, mas ainda havia brasas vivas e um calor irregular que subia em ondas no ar frio da noite. O cheiro amargo de carne queimada se agarrava à garganta, como se tivesse decidido morar ali. Um vento fraco carregava a fumaça pela praça, misturando-a com o riso das crianças. Riso leve, de brincadeira… mas errado, fora de lugar, como se viesse de outro tempo.
Os quatro agentes permaneceram parados por longos minutos, observando a multidão. Não era só o ato — a mulher amarrada e queimada — que incomodava. Era a alegria. Pessoas se cumprimentando, batendo palmas, contando piadas. Como se tivessem acabado de assistir a um espetáculo que esperaram a semana toda.
Valéria foi a primeira a recuar, murmurando quase sem mover os lábios:
— A gente precisa sair daqui.
Sem responder, os outros a seguiram até os carros. Haviam estacionado numa clareira de terra batida, alguns minutos de caminhada pela estrada principal. O motorhome de Clara e Braga estava ao lado do carro de Marcos, ambos cobertos por uma fina camada de poeira avermelhada.
Marcos se isolou no carro, checando equipamentos, escrevendo anotações apressadas. Clara e Braga entraram no motorhome, com suas camas estreitas, a pequena mesa, o banheiro minúsculo e um armário onde guardavam pastas e mapas. Valéria preferiu o banco do passageiro, de onde podia ver a estrada — embora ela parecesse mudar de cor sob a luz da lua, como se não fosse feita de asfalto ou terra, mas de algo que respirava.
Naquela noite, ninguém dormiu bem.
Valéria sonhou com um rio negro, espesso como tinta, onde peixes de olhos humanos a encaravam. Um deles chamava seu nome, mas a voz não vinha de sua boca. Ela se via criança, no quintal dos avós, enterrando um embrulho de pano encharcado. Tentava lembrar o que havia dentro, mas cada vez que chegava perto, o rio se agitava.
Braga acordou várias vezes com a sensação de que havia alguém dentro do motorhome. Em uma delas, percebeu uma figura feminina parada do lado de fora, olhando fixamente para ele pela janela. No instante em que acendeu a luz, a figura desapareceu, mas a marca de uma mão pequena permanecia na vidraça, úmida, como se tivesse acabado de ser feita.
Clara chorou dormindo. No sonho, voltava para o apartamento de infância, no subúrbio do Rio. Tudo estava vazio. Nenhum móvel, nenhuma foto. Apenas uma mesa posta para quatro pessoas, com pratos de porcelana branca. No seu prato, um monte de dentes humanos, cada um polido como se tivesse sido lavado há pouco.
Marcos não se lembrava de sonhar. Mas, ao acordar, encontrou seu caderno aberto sobre o peito. Entre as anotações da tarde anterior, uma frase escrita com letra estranha, mais fina, quase infantil: "Ela ainda está viva."
Quando se reuniram pela manhã diante do motorhome, o silêncio foi maior que as palavras. Clara apenas disse o que todos já sabiam:
— Esse lugar… tem alguma coisa errada.
E ninguém discordou.
Obrigado por acompanhar essa história.
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Até a próxima.



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