O Último Turno na Taverna do Corvo Cego
Nem toda aventura termina com aplausos, loot lendário e um pôr do sol vitorioso. Às vezes, termina com gritos, dados amaldiçoados, decisões questionáveis e aquele silêncio respeitoso (ou risadas nervosas) ao redor da mesa.
O conto a seguir é inspirado nesses momentos épicos em que tudo dá errado — e ainda assim, é inesquecível. Um TPK não é o fim… é só o início de uma boa história para contar depois.
Puxe a cadeira, segure o riso (ou não) e venha ver como tudo desandou.
O Último Turno na Taverna do Corvo Cego
por Gilmar, o Taverneiro
Dizem que a morte de um herói é cantada por bardos.
A deles, não foi.
Foi esquecida — ou pior: ignorada.
Naquela noite, chovia forte. As telhas da Taverna do Corvo Cego pingavam um lamento constante, e o fogo da lareira tremia como se também sentisse o que estava por vir. Eles chegaram ensopados, famintos, e com aquela arrogância juvenil que só aventureiros bons demais pra morrer carregam no peito.
Eram cinco.
A clériga de escudo largo, com olhos como aço forjado.
O ladino sorridente, que já me enganara três vezes — e eu deixava, só pra vê-lo tentar.
A maga das runas vivas, com um grimório que parecia respirar.
O bárbaro de cabelos trançados, que ria alto, cuspia no chão e me chamava de “velho sábio”, só porque eu lhe servia cerveja.
E o último… o líder, o paladino, cujo nome nunca me atrevi a perguntar. Ele tinha o tipo de olhar que faz a gente sentir vergonha sem saber por quê.
Sentaram-se na mesma mesa de sempre.
Pediram pão, carne, vinho. Fizeram planos. Riram de monstros.
Falaram da ruína sob o monte Eskar, como quem fala de um poço seco. "Tem um artefato lá, uma relíquia da Primeira Guerra", disse a maga. “E um guardião”, alertou a clériga. O ladino só deu de ombros.
Eu queria dizer algo.
Queria dizer que já ouvira esse papo antes.
Queria contar do grupo que partiu na lua passada — e não voltou.
Queria falar do corvo que pousou na janela aquela manhã, cego dos dois olhos, bicando o vidro como se quisesse entrar. Um mau agouro, minha avó diria.
Mas calei.
Eles eram jovens. Corajosos. Cheios de vida.
A gente só entende o peso dessas palavras quando elas viram ausência.
Pagaram a conta. O bárbaro deixou duas moedas a mais. “Pra quando voltarmos”, disse.
Riram. Brindaram. Saíram sob a tempestade.
Na manhã seguinte, só restava o silêncio.
E dias depois, uma única coisa foi encontrada no sopé do monte:
o escudo da clériga — quebrado ao meio.
Desde então, deixo a mesa deles montada.
Cinco cadeiras. Cinco canecas. Um pão velho e uma vela apagada.
Alguns dizem que é bobagem. Outros acham bonito.
Mas eu deixo ali. Porque no fundo, acredito que um dia eles ainda vão entrar por aquela porta, rindo alto, pedindo mais carne, mais vinho, mais aventuras.
E se não voltarem…
Que ao menos esta história sobreviva a eles.



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